Saturday, March 03, 2007

Boneco inflamável

Assim que o corvo empoleirou-se no canudo, na taça de vinho, parecia chover dentro do bar, mais perto do balcão. O vagabundo tangeu para longe o pássaro, que abalou num vôo às cegas, soltando penas carijós. Então veio um cachorro lamber-lhe os artelhos, falando numa língua estranha, algo entre latim e alemão. Julgou a conversa enfandonha, sobre felinos ou ossos, porque as falas eram ásperas, quase latidas. Tangeu o cachorro também. E ainda chovia dentro: bátega apontada especialmente para o vagabundo.

O corvou voltou, bebericou uns pingos de vinho, gargarejou-os, carcarejou, arrotou, deu boa-noite e ganhou os céus, confundindo-se com a pretidão da noite.

Agora, enquanto cantarolava, o homem procurava as pílulas no bolso da calça; mas, uma a uma e à exceção de uma, elas saltaram ao chão, trampolinando os dedos incertos. A que ficou foi dissolvida no estômago; as que fugiram, com dentinhos extraordinariamente nascidos, roeram uma das pernas da cadeira em que dormitava o ébrio. Caiu sobre o braço e o vômito: arroz e macarrão semidigeridos na cabeleira. Adormeceu e sonhou com pílulas ferozes, corvos e cães.

Acordou, viu pílulas estilhaçadas no chão e se lembrou de tê-las derrotado num combate a martelo. Arrumou a carapinha e conseguiu sair do bar, mas gingante, pequeno entre os mais sóbrios. Sentou-se no meio-fio defronte. Passou longos momentos pensando em nada, merditando, numa consciência vazia do tudo e de nada, num vácuo existencial. Era o só e ao mesmo tempo não era. Simplesmente a folha carregada pelo vento tacinoturno atravessava-lhe a carcaça etérea.

Foi aí que percebeu que não estava bêbado: era bêbado. Mas os raros lampejos de consciência lhe apresentavam passantes, cidadãos sérios retornando aos seus lares e cães mostrando garbo da andadura. Assim, esconso e amparado por um cotovelo, descobriu que um cão o superava na altura. E isso autorizou nova conclusão: até um cachorro ordinário tinha mais brio. "Brio! Que é mesmo brio? Brio, brio... Até abril me ajeito!... Abriu... Abriu outra garrafa? Cadê?". E dormiu.

Nunca mais acordou. Enquanto morria, enquanto o álcool fazia ignição com os batimentos cardíacos, o rock and roll embalava amores sobre as camas do motel. Na calçada, do gargalo como bica, cachoeirava um conhaque indistinto. A substância pingava na sarjeta, pingava, pingando ardente, no ritmo da diástole que se fizera eterna.

1 Comments:

At 6:31 PM, Anonymous Lucas said...

Tem gente na faculdade que está chegando a esse estágio...
hehe! Irado esse post.

 

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